O Sofrimento como Conflito Cognitivo para a Transformação Pessoal

April 10, 2015

 

A vida de todos nós é uma construção, que pressupõe: aprender e transformar modelos fornecidos pela família e comunidade, tomar contato e reinterpretar crenças e valores da cultura, elaborar experiências pessoais...

 

Esta construção é nosso patrimônio, que nos confere um modo de ser, de viver, de olhar para as situações de vida e desenvolver estratégias para lidar com os acontecimentos do dia a dia. Nossa construção de vida nos dá referência de nós mesmos, da nossa história pessoal, nos fornece um sentido de identidade.

 

A maneira como percebemos o mundo, as pessoas que convivemos e a nos mesmos, forma nosso conceito em relação ao nosso ambiente social e nosso autoconceito, isto nos confere segurança, uma consistência diante das situações de vida.

 

Nosso autoconceito pode ser mais rígido ou mais flexível, dependendo de nossas crenças pessoais e nossa vulnerabilidade afetiva. Por exemplo: caso eu tenha estabelecido crenças de que: mudar é saudável, renovador, exercício de coragem é possível que a construção de um autoconceito flexível seja mais provável em minha vida, contudo se meu desenvolvimento foi marcado por padrões de que mudar significa ser pusilânime, incerto, imaturo é bem provável que alterar minha maneira de pensar, sentir e agir seja mal vista por mim mesmo.

 

A vulnerabilidade afetiva também exerce um papel fundamental, em momentos de insegurança pessoal tendemos assumir posições mais rígidas, como após experiências de abuso emocional que produzem trauma, esta vulnerabilidade pode estar ligada também a fatores bioquímicos, pessoas com quadros de alterações hormonais podem ficar predispostas para viverem processos depressivos que as tornam mais negativistas e resistentes.

 

A flexibilidade, a abertura para mudança é conveniente para a saúde mental e física, organismos com competência de lidar com impactos de mudanças no ambiente revendo e atualizando estratégias, configuram-se mais adaptativos e com mais possibilidade  de sobreviver. A vida é fluxo, quando fluí a saúde se estabelece, tanto física como psiquicamente.

 

A interiorização e a exteriorização são recursos de troca com o meio ambiente, possibilitando entrada e saída numa dança de harmonia, que denominamos de saúde, formamos enquanto seres um grande sistema no planeta, o isolamento, a quebra na troca caracteriza baixa "oxigenação e irrigação", conseqüentemente doença.

 

O importante é compreender que por vezes construímos percepções, conhecimentos, interpretações da realidade e de nós mesmos, que se tornam rígidos e excessivamente resistentes a mudança, queremos manter nossa estrutura cognitiva, nosso autoconceito a qualquer custo.

 

A crise e o sofrimento representam o “conflito”; com o conhecimento do passado e ter de responder ao novo, as velhas estratégias de lido com a vida mostram-se impotentes para criar resultados pretendidos. A revisão das concepções antigas é imperativo de vida. Claro que todo conflito cria ansiedade, dor psicológica, a revisão do autoconceito abala nosso sentido de identidade. Estabelecer novas crenças, resignificar valores, buscando ver vantagens na adversidade expressa uma vida mais flexível e sadia, entretanto pressupõe enfrentar o sofrimento da mudança.

 

O sofrimento como conflito cognitivo, traçando roteiro de transformação pessoal é fator de desenvolvimento, compreendo a importância de nossa cultura rever as crenças de que sofrer nos conferirá felicidade eterna, contudo a crença de que somente o prazer trará a felicidade eterna trata-se de engodo. A felicidade pressupõe uma construção que não se esgota no presente, quantas facilidades poderiam nos garantir o prazer hoje e sofrimento futuro.

 

O sofrimento deve ser examinado como oportunidade e desafio para aprendermos a lidar com situações novas, aperfeiçoando nossa inteligência, ambiente que nos possibilita o desenvolvimento da competência emocional para atuarmos na crise, a capacitação oportuna de nossos novos talentos que nos serão úteis como ferramentas para utilizarmos em outras situações de vida. Não pensassem assim os pais de Lourenzo, que ao saberem do diagnóstico do filho com adrenoleucodistrofia, doença extremamente rara e incurável que consiste na degeneração do cérebro, não teriam buscado descobrir uma outra forma de ajudar seu filho que resultou na terapia do óleo de Lourenzo. Estes pais e seu filho mostraram que a degeneração cerebral, nunca degenerou o amor e o sentido de família que os une. Aceitando e buscando aprender com a adversidade

 

Christopher Reeve (ator que viveu o super homem) tem nos dado exemplos de persistência, ousadia e coragem enfrentando a paralisia depois de um acidente de equitação, esclarecendo que nunca ficou paralisado frente a paralisia.

 

São Francisco de Assis desnuda-se da riqueza que o limitava e gerava sofrimento e torna-se rico em esperança para os que sofrem.

 

Victor Frankl (psicólogo) preso num Campo de Concentração Nazista cria a “Logoterapia”, uma forma de   psicoterapia. Superando as limitações do Campo cria esta teoria sobre o valor do homem atribuir um sentido à sua vida (Psicologia do Sentido), mesmo vivendo num lugar sem sentido (Campo de Concentração).

 

Beethoven estava totalmente surdo quando compôs a Nona Sinfonia, a surdez não impediu a harmonia e a musicalidade que explodia em seu ser, hoje sabemos que mesmo as pessoas com perdas auditivas severas, necessitam da música e podem senti-la por ressonância óssea.

 

O sofrimento e a crise podem representar o ambiente estimulante e propício para novos aprendizados nas diversas passagens da vida. Muitas vezes este aprendizado somente será estabelecido se tivermos a figura do mediador a contribuir na construção de uma nova visão relacionada ao sofrimento, nos facilitando a abertura e repensar de conceitos, crenças e interpretações da crise.

 

O mediador assume diversas formas: de um educador, um pai, uma mãe, um religioso, médico, um psicólogo, um jornalista, ou mesmo a arte como veículo de mediação da transformação pessoal.

Resignificar o sofrimento, estabelecendo novas crenças para encará-lo não só como dor, mas como oportunidade de enriquecimento pessoal é um desafio que nos fará mais felizes e com certeza mais competentes para viver.

 

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